23.4.05

Em defesa das galinhas - Antônio Carlos Santini

Em defesa das galinhas

Antônio Carlos Santini



Antigamente, os teólogos falavam de Deus. E falavam com Deus! Hoje, falam de águias e galinhas...
Pior: desfazem das pobres galinhas, acusadas de rasteiras, materialistas e cooptadas pelo poder, ao mesmo tempo que elogiam as águias até as nuvens, apontando as aves de rapina como ideal do comportamento humano. Cruz credo!
Temo por nossos jovens. A primeira vista, a imagem da águia poderia ajudá-los a olhar para cima, convidando a nova geração a "voar alto" em busca de grandes ideais, superando barreiras. Mas um olhar mais atento para a história da humanidade há de mostrar que a águia sempre foi o símbolo do poder imperial, do roubo e da violência. Ora, todo mundo sabe que a águia é simplesmente um predador!
Não é necessário ser nenhum especialista em heráldica para lembrar que as legiões romanas espalharam o terror pelo entorno do Mar Mediterrâneo, erguendo bem alto os estandartes das águias romanas. Em pleno absolutismo, praticamente todas as casas reais adotaram a mesma figura ameaçadora em seus brasões, desde a honorífica Águia Branca da Polônia até a Águia Negra da Prússia. Mais recentemente, quando as botas nazistas esmagaram a Europa, as bandeiras negras tremulavam ao vento, juntando a cruz gamada e a águia sedenta de sangue.
Voltando ao próprio bicho, simbolismos à parte, a águia é um animal solitário, desgarrado da realidade, absolutamente inútil para a humanidade. Grande desportista, companheira dos adeptos da asa-delta, apenas interrompe seu vôo altaneiro para mergulhar sobre suas presas: os cordeirinhos inermes, as canoras cotovias, as franguinhas distraídas.
Já a galinha, laboriosa e produtiva, merece nossa admiração. Se a galinha não tem nada para fazer, cisca. E, ciscando, deixa o quintal absolutamente limpo, impecável, livre de vermes e insetos. Até os escorpiões são definitivamente eliminados do terreiro se as galinhas vivem por lá.
E tem mais: como esquecer as simpáticas leghorns que meu pai alimentava com milho dourado, recebendo em troca, por nove meses a fio, um ovo diário, sadio e vitaminado? Ou aquelas corpulentas new-hampshire que a Vovó Xandoca criava na estação ferroviária de Costa Pinto, e corriam em direção às mancheias de milho, bicando até os artelhos de sua dona? Além dos ovos, as galinhas forneciam as penas para nossas petecas infantis. Quando ficavam cansadas de sua faina produtiva, acabavam na panela, para gáudio geral. E nós, os pirralhos, ainda nos divertíamos com o "jogo" (aquele ossinho em forma de "Y"), que permitia uma espécie de aposta entre os irmãos com suas tretas e mutretas.
Dizem que as águias são capazes de empurrar seus filhotes no vazio do espaço, lá dos píncaros enfumaçados onde fazem seus ninhos, forçando os pequenitos a voar... ou morrer. Que diferença das galinhas! Mães exemplares, tão logo os pintinhos famintos bicam a casca do ovo e saem à luz, lá estão as mães-galinhas a circular por todos os quadrantes, buscando alimento para os filhotes. E experimente o leitor estender a mão na direção de sua prole: verá uma galinha ruça, de pescoço eriçado, voar em sua direção com bicos e esporas, movida pelo mais terrível instinto maternal!
Aliás - meus tristes teólogos - Jesus Cristo jamais se comparou às águias. Mas fez questão, o Mestre de Nazaré, humilde e manso, de comparar-se exatamente às galinhas da Palestina: "Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como uma galinha reúne seus pintinhos sob as asas, e vós não quisestes!" (Mt 23, 37.)
Nesta nova geopolítica dominada pelos "duros", isto é, pelos "falcões", já chega de mitificar os poderosos, os que fabricam mísseis intercontinentais e bombas inteligentes! É hora de valorizar a gente pequena, ocupada com pequenas coisas, como as enfermeiras que cuidam dos doentes, as serventes que alimentam os velhinhos do asilo, as mamães que amamentam seus filhos.
Fora com as águias! Sejamos galinhas!


Fonte: O Lutador, 11 a 20 de fevereiro de 2004.

6 comentários:

Anônimo disse...

QUEM SERÁ O AUTOR DESTE TEXTO, A.C.SANTINI? SERÁ UM FILHOS DE MINDURI-MG? EX-SEMINARISTA E PROFESSOR DE PORTUGUÊS EM VOLTA REDONDA-RJ? HOJE UM COROA DE CERCA DE 60 ANOS, PAI DE UM CASAL DE FILHOS ADULTOS?
O TEXTO, O ESTILO, A SAGACIDADE, O TEMA PODEM MUITO BEM SER DELE.
SE FOR, TENTE COMUNICAR-SE POR ESTA MESMA VIA. CÁ VOLTAREI.

Jornal disse...

Alô, Fábio,
Paz e bem!

Um "anônimo" da silva pergunta aqui em seu blog, a respeito da crônica sobre as galinhas, se eu sou eu mesmo (ex-prof. em Volta Redonda, pai de 2 filhos etc.).
Gostaria de fazer contato com ele: meu e-mail é santiniac@yahoo.com.br
Antônio Carlos Santini

belinha disse...

Paz e Bem, Mestre Santini;
Gostaria muito de revê-lo e ouvir suas belas colocações sobre Deus e sobre a Doutrina da Santa Igreja. Estive por alguns retiros pregados pelo senhor, foram grande fonte de sabedoria e alegria. Que Deus continue a abençoá-lo. Amém!
Ass.: Isabela Maia, Paróquia Nossa Senhora da Guia, Magé - Diocese de Petrópolis.(bhelamaia@gmail.com)

Ricardo Jahara disse...

Perfeito o texto.
Sou mais um grande admirador do A.C. Santini.
Um grande abraço,
Ricardo Jahara-Magé-RJ.

Anônimo disse...

ENTÃO JAMAIS COMA GALINHAS!!!

Eliana Freddi - Teófilo Otoni-MG disse...

Fantástico o texto ... E olha que eu achava boa a história da galinha e da águia...